Os gémeos digitais começaram por ser apresentados como uma forma relativamente simples de transportar objetos, equipamentos ou infraestruturas do mundo físico para uma representação virtual. Na prática, o mercado que entretanto se formou em torno deste conceito tornou-se bastante mais difícil de delimitar. E talvez seja precisamente essa dificuldade que melhor explique a sua atual estrutura.
A IoT Analytics, empresa alemã de investigação de mercado que acompanha este segmento desde 2020, estima que o software comercializado especificamente como produto independente de gémeos digitais tenha movimentado 1,3 mil milhões de dólares em 2025.
O número ganha outra dimensão quando comparado com o universo tecnológico no qual estas soluções funcionam. Ferramentas de desenho assistido por computador, gestão do ciclo de vida dos produtos, simulação e outras categorias de software que também permitem desenvolver capacidades associadas a gémeos digitais representaram, no mesmo período, cerca de 175 mil milhões de dólares.
O software exclusivamente dedicado a gémeos digitais representa assim apenas 0,7% do gasto no ecossistema mais vasto de aplicações capazes de suportar estas funcionalidades.
Esta diferença ajuda a perceber uma das particularidades deste mercado. O gémeo digital pode ser um produto autónomo, mas também pode surgir como uma funcionalidade integrada em software de engenharia, simulação, gestão industrial ou outras plataformas empresariais. A fronteira entre aquilo que deve ou não ser classificado como uma solução de gémeos digitais continua, por isso, longe de ser evidente.
A própria IoT Analytics teve de ajustar a forma como observa o setor. O modelo introduzido em 2020 organizava as soluções segundo três dimensões — hierarquia, fase do ciclo de vida e utilização. A investigação mais recente descreve agora um mercado distribuído por quatro contextos de trabalho, desde o desenho e engenharia às redes e sistemas, e por cinco camadas tecnológicas que começam nas fontes de dados e terminam nas aplicações utilizadas pelos utilizadores finais.
É uma arquitetura suficientemente extensa para explicar por que motivo nenhum fornecedor conseguiu ocupar todas as posições.
Entre mais de 1.500 fornecedores identificados neste ecossistema, a investigação não encontrou uma única empresa com controlo sobre toda a cadeia tecnológica dos gémeos digitais.
Não se trata apenas de uma questão de dimensão empresarial. Um dos obstáculos está na própria natureza do software necessário. As tecnologias reunidas sob a designação de gémeo digital recorrem a disciplinas de programação diferentes, tornando difícil para um fabricante construir competências igualmente fortes em todas as camadas. Segundo a análise, são poucos os fornecedores que conseguem manter uma presença sólida em mais de duas ou três áreas em simultâneo.
Há ainda uma dificuldade que as estratégias de plataforma dificilmente resolvem por si só: conhecer aquilo que está a ser reproduzido digitalmente.
Criar uma representação virtual de uma rede elétrica exige especificações diferentes das necessárias para modelar um edifício. Ou seja, a largura funcional de uma plataforma não substitui o conhecimento do setor onde será utilizada.
Nos gémeos digitais, a capacidade tecnológica e o conhecimento específico da indústria surgem como duas partes do mesmo problema. Uma plataforma abrangente não elimina a necessidade de compreender profundamente o ativo, infraestrutura ou sistema que pretende representar.
Mesmo a consolidação empresarial ainda não alterou substancialmente este cenário. Operações recentes envolvendo Synopsys e Ansys ou Siemens e Altair acrescentaram novas capacidades às respetivas estruturas, mas, segundo a investigação, não resultaram até agora numa oferta única capaz de reunir todo o conjunto de tecnologias num produto integrado.
Isto ajuda também a relativizar uma ideia habitual nos mercados tecnológicos: a de que o crescimento acaba inevitavelmente por conduzir a um pequeno número de plataformas dominantes. Pelo menos nesta fase, os gémeos digitais parecem seguir uma trajetória diferente. O mercado cresce, mas continua repartido entre tecnologias, especializações e fornecedores que precisam de funcionar em conjunto.
E deverá crescer rapidamente. As previsões apresentadas apontam para uma taxa composta anual de 27% no mercado de software independente de gémeos digitais, elevando o seu valor dos 1,3 mil milhões de dólares registados em 2025 para cerca de 4,2 mil milhões em 2030.
A previsão de 4,2 mil milhões de dólares em 2030 mostra um mercado em expansão, mas não necessariamente um mercado em processo de concentração.
Para as empresas que pretendem adotar esta tecnologia, essa distinção é relevante. A fragmentação significa que a escolha dificilmente se resume à aquisição de uma única aplicação capaz de resolver todo o problema. A análise da IoT Analytics coloca antes a interoperabilidade entre sistemas, a experiência em cada domínio industrial e as relações entre fornecedores no centro dos projetos.
Neste contexto, o crescimento dos gémeos digitais poderá tornar menos importante a procura de uma plataforma universal e mais importante a capacidade de fazer tecnologias diferentes trabalharem em conjunto. Os números apontam para um mercado maior. A sua estrutura sugere que continuará, pelo menos até 2030, a ser um mercado construído a partir de várias peças.







