Amazon aposta na segunda vida dos produtos

Produtos devolvidos e recondicionados começam a ganhar maior visibilidade dentro das grandes plataformas de comércio eletrônico. No Brasil, a Amazon realiza entre 31 de agosto e 6 de setembro uma nova edição dos Second Chance Deal Days, com descontos que podem chegar a 50% e uma proposta que vai além da promoção: transformar devoluções em uma nova frente de consumo.
31 de agosto, 2026

Durante muito tempo, a devolução de um produto foi encarada sobretudo como um custo inevitável do comércio eletrônico. O artigo regressava à cadeia logística, precisava ser verificado e acabava frequentemente associado a uma operação complexa, cara e pouco visível para o consumidor. Esse cenário começa a mudar à medida que os grandes marketplaces encontram formas de recolocar esses produtos no mercado.

No Brasil, a Amazon volta a testar essa lógica em escala com os Second Chance Deal Days, que decorrem entre 31 de agosto e 6 de setembro. A campanha inclui produtos devolvidos e recondicionados e acompanha uma iniciativa semelhante na Europa, onde o evento decorre de 1 a 10 de setembro em mercados como Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Espanha.

Durante o período promocional, estarão disponíveis dezenas de milhares de artigos em categorias como tecnologia pessoal, gaming, equipamentos para cozinha e produtos para a casa, com reduções que podem atingir 50% em relação ao preço recomendado de produtos novos equivalentes.

Para o mercado brasileiro, a iniciativa ajuda a colocar o recommerce — a revenda de produtos devolvidos, usados ou recondicionados — dentro da operação regular do comércio eletrônico, e não apenas como um segmento paralelo.

Essa mudança é particularmente relevante porque altera a lógica econômica das devoluções. Um produto que regressa ao vendedor deixa de representar necessariamente o final de uma transação. Depois de inspecionado, testado, limpo ou reparado, pode voltar ao mercado com outra classificação e outro preço, abrindo uma nova oportunidade de venda.

A Amazon afirma que todos os produtos devolvidos passam por inspeção. Os artigos considerados em condições perfeitas podem voltar a ser comercializados como novos, enquanto os restantes são vendidos com desconto, que aumenta de acordo com o estado do produto.

É precisamente nesta capacidade de avaliar, recuperar e recolocar rapidamente os produtos no mercado que reside uma parte importante do modelo. O valor deixa de estar apenas na primeira venda e passa também pela capacidade de prolongar comercialmente a vida útil de cada artigo.

Os números apresentados pela empresa para outros mercados ajudam a perceber a escala que este segmento pode atingir. Na Europa, a Amazon disponibiliza mais de 60 milhões de produtos devolvidos e recondicionados em praticamente todas as categorias e afirma que a compra em segunda mão permite aos consumidores poupar, em média, cerca de 20% face ao preço recomendado de um produto novo equivalente.

Nos Estados Unidos, os consumidores compraram mais de 100 milhões de produtos em segunda mão no último ano, gerando poupanças superiores a 1,5 mil milhões de dólares. As vendas desta área aproximavam-se dos 4 mil milhões de dólares no ano em curso, segundo os dados divulgados pela empresa.

A fonte não apresenta números equivalentes exclusivamente para o Brasil, mas a inclusão do país numa campanha específica para a América Latina mostra que esta lógica de reaproveitamento começa também a ganhar espaço na estratégia regional da plataforma.

Há ainda uma segunda dimensão nesta transformação. Reduzir devoluções continua a ser tão importante quanto conseguir rentabilizá-las. Para isso, a Amazon utiliza ferramentas como resumos de avaliações suportados por inteligência artificial, informação mais detalhada sobre os produtos e sistemas de recomendação de tamanhos. Segundo a empresa, mais de 90% dos consumidores que compram o tamanho recomendado ficam satisfeitos com a escolha. Produtos com taxas de devolução mais elevadas são também sinalizados para levar o consumidor a rever descrições e avaliações antes da compra.

A lógica é simples: quanto melhor for a decisão de compra, menor será a pressão sobre a cadeia logística. Mas, quando a devolução ocorre, o objetivo passa a ser recuperar o máximo possível do valor do produto.

No Brasil, esta abordagem pode ajudar a tornar mais visível uma categoria que ainda tende a ser percecionada de forma diferente da venda tradicional de produtos novos. O desafio não é apenas oferecer um desconto. É criar confiança suficiente para que o consumidor aceite comprar um artigo que já passou por outra transação, mas que foi inspecionado e voltou ao mercado com uma classificação clara do seu estado.

É aqui que o recommerce começa a aproximar-se do comércio eletrônico convencional: precisa de preço, escala e logística, mas também de confiança.

Há igualmente uma componente de reaproveitamento associada ao modelo. Quando um produto já não pode regressar à venda, mas continua em boas condições de utilização, a Amazon afirma encaminhá-lo para organizações parceiras. Em 2025, a empresa diz ter doado diretamente, ou apoiado vendedores na doação, de 216 milhões de artigos em todo o mundo.

O Second Chance Deal Days brasileiro pode, por isso, ser lido para além dos descontos de uma semana. A operação mostra como os grandes marketplaces começam a transformar a logística reversa — todo o processo que leva um produto do consumidor de volta ao vendedor — numa parte mais integrada do negócio.

Num mercado de comércio eletrônico com volumes cada vez maiores, as devoluções dificilmente desaparecerão. A questão passa a ser o que acontece depois delas.

Quando um produto devolvido consegue regressar ao mercado e encontrar um segundo comprador, aquilo que antes era sobretudo um custo logístico começa a transformar-se numa nova economia dentro do próprio e-commerce.

[wpadcenter_random_ad adgroup_ids=228 align='center' devices=tablet,desktop] [wpadcenter_random_ad adgroup_ids=229 align='center' devices=mobile]
[wpadcenter_random_ad adgroup_ids=227 align='center' max_width='on' max_width_value=240]
Publication cover

Quantum Technologies: Key Opportunities for Advanced Manufacturing and Supply Chains

Tecnologias quânticas: oportunidades fundamentais para a fabricação avançada e supply chains.

Opinião