A nova fronteira da liderança tecnológica

O surgimento do diretor de confiança começa a reorganizar o equilíbrio entre segurança, reputação e estratégia, numa etapa que promete redefinir o papel dos CISO e o modo como as empresas lidam com dados, IA e risco.
18 de novembro, 2025

O movimento que está a colocar a confiança no centro das decisões tecnológicas ganhou escala suficiente para entrar na agenda dos conselhos de administração. O cargo de diretor de confiança, criado há cerca de uma década em empresas de software B2B, nos Estados Unidos, começa agora a consolidar-se como resposta à pressão acumulada de privacidade, segurança, conformidade, gestão de risco e uso responsável de inteligência artificial, também em algumas empresas europeias. Para muitas organizações, tornou-se necessário identificar um responsável único por esta área. Para os CISO, este desenvolvimento abre uma questão estratégica: trata-se de concorrência, complementaridade ou uma possível evolução da função que já ocupam.

O interesse crescente por esta função nasce num contexto em que a confiança institucional sofreu uma deterioração visível, refletida nos estudos mais recentes sobre perceção pública e empresarial. Esta perda tem impacto direto na aquisição de clientes, na retenção e na própria capacidade competitiva. A resposta de várias empresas tem sido formalizar um cargo orientado para restaurar essa credibilidade.

O impacto na relação entre CISO e diretor de confiança

A criação desta função está a obrigar as organizações a ajustar fronteiras internas. O CISO continua a concentrar-se na proteção operacional, controlo de riscos e resposta a incidentes. O diretor de confiança expande esse perímetro para abranger reputação, ética, comportamento organizacional e expectativas dos clientes. A parceria entre estas duas figuras tende a reposicionar a segurança como parte ativa da estratégia de negócio e não como um conjunto de restrições técnicas.

Nalgumas empresas, nos Estados Unidos, TI e segurança foram unificadas num departamento de Confiança, com o CISO a reportar ao diretor de confiança. Este modelo pretende transformar preocupações técnicas em garantias compreensíveis para decisores e clientes, especialmente durante incidentes de segurança. A ideia central é que a confiança se reconstrói com clareza e coerência, e não apenas com métricas técnicas.

Os responsáveis que desempenham esta função defendem que a confiança já influencia diretamente receita e reputação. Quando clientes e parceiros perdem credibilidade numa marca, o impacto nos resultados é imediato. O alinhamento entre confiança e estratégia de negócio passa por processos robustos, programas de governança de IA e validações externas, como certificações ISO específicas para esta área. Estas referências oferecem às empresas uma forma estruturada de demonstrar práticas consistentes.

O desafio de medir e operacionalizar a confiança

Um dos pontos mais sensíveis é a medição. Não existe um conjunto de ferramentas pronto a utilizar para avaliar confiança, por isso os diretores de confiança constroem modelos próprios que combinam indicadores de clientes, funcionários e desempenho operacional. O foco desloca-se da tentativa de quantificar confiança para a observação de sinais que mostram se a empresa está ou não a ser vista como credível.

Indicadores como sentimento dos clientes, confiança na plataforma, retenção e eventuais barreiras comerciais associadas a temas de segurança são utilizados para perceber tendências. Este enfoque pretende evitar que o título se transforme num exercício de imagem sem correspondência prática. A análise alerta, aliás, que uma adoção superficial pode degenerar num cenário em que o cargo existe, mas a mudança não se concretiza.

O papel da administração na nova arquitetura de confiança

A confiança está cada vez mais ligada a resultados económicos e bem-estar organizacional, pelo que as empresas são incentivadas a tratá-la como prioridade de topo. Para isso, o diretor de confiança deve ter visibilidade direta junto do conselho de administração. A elevação desta função ao nível executivo funciona como sinal de que confiança deixou de ser apenas um tema tecnológico para se tornar um tema estratégico.

Vários responsáveis apontam que esta abordagem permite enquadrar temas de segurança em termos que o conselho compreende melhor, facilitando a ligação entre riscos operacionais e objetivos comerciais. A discussão deixa de se centrar na quantidade de vulnerabilidades corrigidas e passa a considerar o impacto real na relação com clientes e parceiros.

Um possível futuro para os CISO

O percurso profissional de muitos dos primeiros diretores de confiança mostra uma transição natural a partir de funções de CISO. A experiência acumulada no contacto direto com clientes, na gestão de risco e na governação de dados cria uma base sólida para este novo cargo. O diretor de confiança exige competências de comunicação, empatia e visão transversal que ultrapassam as funções tradicionais de segurança.

Alguns CISO já atuam, na prática, como gestores de confiança, coordenando temas que vão muito além da cibersegurança estrita. No entanto, a recomendação recorrente é evitar transformar este cargo numa simples mudança de nome. O objetivo é alargar o alcance da função, não renomeá-la.

Esta mudança pode ser encarada como uma evolução natural para quem já trabalha com risco, segurança e relacionamento com clientes. A maior parte dos especialistas descreve esta passagem como uma mudança de mentalidade. O diretor de confiança procura garantir que a organização não só protege os seus sistemas, mas também demonstra, todos os dias, que merece a confiança dos clientes.

Com informação Computerworld